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Crescem no Brasil os casos de verrugas assassinas no aparelho genital feminino


30/03/2009 10:00



Crescem no Brasil os casos de verrugas assassinas no aparelho genital feminino



Um vírus que é um ilustre ausente das campanhas de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis, o vírus papiloma humano, HPV, está deixando especialistas em saúde pública alarmados. Perto do HIV, que leva aos suplícios da Aids, o papiloma até parece inofensivo. Surge geralmente como uma verruga que, percebida a tempo, pode ser retirada por métodos rápidos. Até aí, a notícia não seria tão ruim. Mas o HPV já é o líder entre as doenças sexualmente transmissíveis, atingindo uma em cada três mulheres brasileiras com vida sexual ativa, a maioria jovens entre 20 e 29 anos. É um dos principais responsáveis pela morte de 6.000 vítimas de câncer no colo do útero em 1997. Em 1998, as autoridades médicas já esperam a ampliação desse número para a casa dos 7.000 óbitos. Estudo realizado pela bióloga molecular e virologista Luisa Lina Villa, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, encontrou material genético do vírus HPV em nove de cada dez casos de câncer no colo do útero. O perigo é que as verruguinhas, após um período de latência no aparelho genital feminino, se transformam em câncer. Para piorar, mesmo quando isso não acontece, a simples existência das lesões torna as mulheres mais vulneráveis ainda à infecção por outras doenças sexuais, a Aids inclusive. Há dezoito vezes mais possibilidades de uma pessoa infectada com o HPV ser contaminada também pelo vírus HIV.

O HPV é uma família de vírus com mais de setenta subtipos, dos quais trinta têm potencial de atingir a mucosa genital. Dos trinta, a metade é considerada de alto risco, ou seja, fortemente oncogênica. Noventa por cento das contaminações acontecem por contato sexual com a pessoa infectada. Os 10% restantes são transmitidos por roupas íntimas e objetos tocados por alguém doente. Também acontece de a mãe transmitir para o filho no parto natural. O vírus aloja-se preferencialmente no pênis e na vulva, mas pode fixar-se ainda no canal vaginal, colo do útero e ânus. Após um período de incubação, que em média varia entre três semanas e oito meses — registram-se casos em que o vírus permaneceu latente por até três anos —, surgem as verrugas, em forma de minicouves-flores, que depois podem degenerar em câncer. O vírus infecta homens e mulheres, que por sua vez se tornam disseminadores da doença, mas é entre as mulheres que faz os maiores estragos.

Lesões ocultas — A anatomia masculina facilita a descoberta das verrugas, que podem ser retiradas facilmente, por cauterização com calor, eletricidade ou laser, com o uso de ácidos para queimar a lesão ou pela aplicação de nitrogênio líquido sobre os tecidos infectados, destruindo-os por congelamento. Já nas mulheres, instaladas em locais difíceis de ser visualizados fora de um exame ginecológico, podem crescer e se multiplicar. Estudos revelam que 30% das vítimas desenvolverão o câncer de colo de útero, uma doença até fácil de prevenir e 100% curável quando diagnosticada a tempo. O problema é justamente esse. Como o tempo médio entre as consultas ginecológicas no Brasil é de três anos, quando o médico identifica o câncer já é tarde demais, e a mulher apresenta metástases para outros órgãos. É trágico porque, mesmo quando ainda não são visíveis a olho nu, as verrugas causadas pelo HPV podem ser detectadas por um exame de rotina nos consultórios ginecológicos, o papanicolau. Em 75% dos casos, esse teste, que se baseia na coleta de células do útero para posterior análise em laboratório, consegue apontar a presença da infecção. Nos países desenvolvidos, onde as consultas médicas são feitas com um intervalo de seis meses, a taxa de mortalidade pelo câncer de útero é ínfima. Quatro casos por 100.000 habitantes, contra os nove óbitos brasileiros.

Contribui ainda para aumentar o risco o fato de o vírus do papiloma estar atingindo principalmente os jovens, que iniciam a vida sexual mais cedo, são mais desinformados, mais inseguros e, em geral, mais afastados dos serviços de saúde. Uma pesquisa com 2.337 adolescentes, de 1991 a 1995, patrocinada pela Organização Mundial de Saúde, revelou que 25% dos entrevistados fizeram sexo antes dos 15 anos. Desses, sete em cada dez não usaram o preservativo na primeira relação e apenas um em cada cinco o usa regularmente. "As meninas têm medo de não agradar e os meninos, de falhar. Por isso não colocam o preservativo", informa a coordenadora da pesquisa e chefe do Programa de Atenção ao Adolescente, Albertina Duarte Takiuti. As conseqüências são funestas. Enquanto em 1986 o Programa de Atenção Integral ao Adolescente da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo detectou que apenas 2% das meninas atendidas na rede pública tinham algum tipo de doença sexualmente transmissível, em 1997 esse índice chegou a 10%.

Como norma para a prevenção, os especialistas recomendam observar os cuidados básicos de higiene e usar preservativos desde o início da relação sexual (não vale fazer as preliminares sem a camisinha, colocando-a apenas na hora da ejaculação). Evitar compartilhar toalhas de banho e roupas íntimas é outra arma. A melhor receita dos especialistas, no entanto, está ainda longe da realidade brasileira. Educação sexual antes mesmo do início da vida sexual. Estranhamente, nenhuma campanha contra a Aids toca no assunto e, para piorar, o Ministério da Saúde nem sequer incluiu no sistema de notificação compulsória de doenças sexualmente transmissíveis (DST) os casos de HPV.



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FONTE: Samarone Lima / VEJA ON LINE


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