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Obesidade causa doença?


03/03/2009 10:00



Obesidade causa doença?



Vários males de saúde estão relacionados ao excesso de peso. ÉPOCA consultou especialistas para fazer uma lista com os principais problemas que os obesos podem enfrentar – e dá motivos para você não querer colecionar quilos a mais.

A obesidade tornou-se uma epidemia global, segundo a Organização Mundial da Saúde ligada à Organização das Nações Unidas. O problema vem atingindo um número cada vez maior de pessoas em todo o mundo e entre as principais causas desse crescimento estão o modo de vida sedentário e a má alimentação.

Segundo José Carlos Pareja, médico especialista em cirurgia de redução de estômago, a taxa de mortalidade entre homens obesos de 25 a 40 anos é 12 vezes maior quando comparada à taxa de mortalidade entre indivíduos de peso normal. O excesso de peso e de gordura no corpo desencadeia e piora problemas de saúde que poderiam ser evitados. Em alguns casos, a boa notícia é que a perda de peso leva à cura, como no caso da asma, mas em outros, como o infarto, não há solução. Se você ainda tem dúvidas dos problemas que a obesidade pode trazer, listamos as doenças que, comprovadas por pesquisas científicas, são geradas pelo excesso de peso.

Doenças do coração

As primeiras doenças que costumam afetar o obeso são as do coração. Segundo José Carlos Pareja, que também é diretor do Centro de Cirurgia da Obesidade de Campinas (CCOC), o coração de uma pessoa acima do peso tem que “trabalhar” mais. “Se seu peso ideal é 70kg, seu coração foi feito para trabalhar num corpo de 70 kg. Se você pesa 100, ele tem que trabalhar para um corpo de 70 e mais um de 30 e fica sobrecarregado”. Entre as várias doenças do coração está a hipertrofia ventricular, que é o aumento do músculo do coração por excesso de trabalho. A hipertrofia pode evoluir para a insuficiência e gerar arritmia e também aumenta o risco de um acidente vascular cerebral e morte súbita.

Hipertensão

A hipertensão é outro problema comum entre os obesos. Um estudo americano mostrou que 75% dos hipertensos são obesos. O motivo é a alta produção de insulina – por isso muitas vezes o obeso não é diabético, mas tem problema com a pressão alta. A insulina funciona na manutenção do tamanho dos vasos sanguíneos e também favorece a absorção de água e sódio. Uma alimentação não-balanceada somada à compressão dos vasos sanguíneos resulta na pressão alta, que aumenta os problemas no coração. Segundo a Sociedade Brasileira de Hipertensão, o problema é a causa de 40% das mortes por acidente vascular cerebral.

Trombose

Como o coração do obeso funciona com dificuldade, há um mau bombeamento de sangue para o corpo inteiro, gerando doenças ligadas ao sistema vascular. É comum que obesos tenham varizes nas pernas e enfrentem um risco maior de ter trombose – acúmulo de coágulos de sangue dentro de vasos sanguíneos. Uma pesquisa publicada no American Journal of Medicine, em 2005, mostrou que os pacientes obesos tinham 2,5 vezes mais chance de ter trombose do que os indivíduos não obesos. E esse risco foi maior entre as mulheres obesas do que entre os homens obesos (2,75 contra 2,02, respectivamente) e entre os pacientes obesos com menos de 40 anos, em relação aos mais velhos.

Apnéia

Segundo o endocrinologista Marcio Mancini, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a parada respiratória involuntária durante o sono, muito comum entre os obesos, é pouco conhecida e muito grave. O problema atinge mais da metade dos obesos mórbidos. A apnéia acontece mais nos obesos porque eles têm excesso de gordura na região do pescoço e a faringe fica mais estreita, facilitando o fechamento involuntário. Na posição horizontal do corpo durante o sono, a expansão do pulmão para a respiração também é mais difícil. Mancini explica que quem sofre de apneia não tem um sono normal e enfrenta problemas durante o dia, como cansaço, dificuldade de concentração e até mesmo pressão alta.

Esteatose hepática

É o acumulo de gordura no fígado, órgão responsável pelo metabolismo dos lipídeos, que viram glicose e vão para o sangue. Quando há um excesso de gordura ingerida, o fígado não consegue metabolizar tudo e parte se acumula no órgão, que pode desenvolver cirrose ou fibrose. A cirrose é normalmente associada à ingestão de álcool, mas neste caso, pode aparecer em pessoas que não bebem. Segundo o endocrinologista Marcio Mancini, um estudo do Hospital das Clínicas de São Paulo mostrou que 67% dos obesos que fizeram a operação de redução de estômago apresentavam excesso de gordura no fígado e 5,5% deles tinham sinais de cirrose. Após a cirurgia bariátrica, a esteatose desapareceu em 84% e a cirrose, em 75% dos pacientes. Mancini alerta para a dificuldade de diagnóstico. “Metade dos pacientes que fazem ultrassom não consegue saber que está com essa doença, porque é difícil de enxergar. Mas quase todo obeso em fase de obesidade mórbida tem altos níveis de gordura do fígado”.

Depressão

O problema psiquiátrico afeta uma grande quantidade de obesos. Segundo o médico José Carlos Pareja, estatísticas mostram que, na população, 30% das pessoas terão algum tipo de depressão ao longo da vida. Já entre os obesos, esse número sobre para 89%. “São pessoas que sofrem muito com a autoestima, principalmente na adolescência, uma fase em que é importante a socialização. A depressão é uma doença tão importante quanto a pressão alta”.

Asma

A asma está relacionada à presença de uma substância produzida no tecido adiposo chamada eotaxina, capaz de provocar o fechamento dos brônquios. Estudos já mostraram que, quanto maior o índice de massa corporal, maior a quantidade de eotaxina produzida pelo corpo. Por isso, os obesos sofrem mais de asma. “Muitos pacientes meus que tinham graves crises de asma deixaram de ter problemas depois de perder peso. Para muitos obesos que têm asma, a cura é o emagrecimento”, diz Marcio Mancini.

Ele também afirma que as pesquisas americanas sugerem um paralelo entre o crescimento do número de obesos e de asmáticos nos Estados Unidos, que têm o maior percentual de obesos no mundo. Entre 1960 e 1994, o número de americanos obesos aumentou de 12,8 para 22,5%. O número de asmáticos entre 1980 e 1994 subiu de 3,1 para 5,4%.
Infertilidade e gravidez de risco
A produção de hormônio anormal das mulheres obesas desencadeia uma série de problemas relacionados à gravidez. A alta taxa de gordura no corpo provoca maior produção de testosterona – hormônio masculino –, a menstruação fica irregular e a mulher tem mais dificuldade para engravidar. A gravidez da mulher obesa costuma ser de alto risco. Ela pode abortar devido à pressão alta e o bebê também pode ser afetado. Um estudo lançado na última semana na revista da Associação Americana de Medicina mostrou que as obesas têm o dobro de chance de ter filhos com problemas congênitos, como má formação da medula espinhal (que pode levar a um aborto ou a falta de movimento dos membros inferiores) e do coração. O diabetes do tipo 2, que afeta muitas mulheres obesas, também é um fator de risco para gerar problemas no sistema nervoso central e no coração do bebê. Os resultados de ultrassonografia também são mais imprecisos em mulheres obesas, pois a camada de gordura abdominal atrapalha o exame.

Neoplasia

Esse tipo de crescimento desordenado de células, que pode ser benigno ou virar um câncer, é facilitado pelo aumento de peso. Obesos têm deficiência de um tipo de linfócito chamamo "natural killer" (assassino natural) que combate células mutantes. “Muitos casos de câncer são combatidos pelo nosso corpo porque essas células atuam em nossa defesa. Mas, no caso do obeso, as células não conseguem combater sozinhas e o tumor pode se desenvolver”, afirma Marcio Mancini. De acordo com o médico José Carlos Pareja, o aumento de massa corpórea é um fator de risco para mulheres desenvolverem câncer de mama e de endométrio. Ele alerta para a dificuldade de diagnóstico e de tratamento em pacientes obesos devido à camada de gordura muito espessa. “O tratamento do câncer em um obeso não é mais difícil, mas como o diagnóstico pode ser tardio, a cura pode ficar mais difícil”.

Estudos científicos já haviam provado a ligação entre alguns tipos de câncer e a obesidade. No ano passado, uma dissertação de mestrado da Faculdade de Medicina da USP mostrou que pacientes obesos que reduziram o tamanho do estômago por cirurgia tiveram a produção de linfócito natural killer aumentada após seis meses.

Colesterol alto

Os obesos têm baixa taxa de HDL, o colesterol bom que diminui o risco de ataque cardíaco e ajuda a remover o colesterol ruim das paredes das artérias. O acúmulo de gordura dentro dos vasos pode causa entupimento e até um infarto. Um estudo recente da Universidade Estadual de Campinas apontou que o índice de colesterol alto, um problema mais comum em adultos, está atingindo também os mais novos. Dos quase 2 mil jovens e crianças entre 2 e 19 anos que foram atendidos no Hospital das Clínicas da Unicamp, 44% apresentaram alteração nos níveis de colesterol, e a principal causa foi o excesso de peso.

Diabetes do tipo 2

No Brasil, existem de 7 a 8 milhões de pessoas com diabetes do tipo 2. Isso representa 5% da população, porcentagem que é a média em outros lugares do mundo. Porém, segundo o médico José Carlos Pareja, mais de 70% dessas pessoas com diabetes têm algum grau de peso acima do normal. O diabetes tem fatores genéticos, mas quanto maior o peso de uma pessoa, maior a chance de ele aparecer. Isso acontece porque o aumento do peso e da gordura no corpo ocasiona uma resistência à ação da insulina, o hormônio que auxilia o organismo a regular os níveis de glicose.



FONTE: Revista Época


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